para que não te percas em paris – I

 

Entro em modo policial. A viagem a Paris, a partir do momento em que encontro no aeroporto o último livro de Patrick Modiano, coloca-me em modo de investigação. Há qualquer coisa neste título “pour que tu ne te perdes pas dans le quartier” que me diz que para não me perder terei de entrar no avião de livro em riste. Hesito em comprar. Seis euros e noventa e nove cêntimos, um preço que no mercado português só se consegue se alguém estiver enganado. Tiro o livro uma e duas vezes e volto a pousar. Finalmente decido-me a comprá-lo. A miúda da caixa cumprimenta-me em francês e sinto que já nem estou em Lisboa. Sinto que a partir do momento em que compro o livro, uma cadeia de acontecimentos levar-me-á até sítios inesperados em Paris, onde um crime ou um caso frio, acontecido há já muitos anos, revelar-me-á algo mais sobre a vida, a existência, e como sempre, a história da Europa. Estarei atento.

Funcionou. Já sentado no avião, depois da refeição simbólica, tiro do livro. À primeira pausa, o meu companheiro de fila mete conversa comigo. Chama-se Daragne e queixa-se do calor anormalmente insuportável em Paris. O termómetro no aeroporto de Lisboa marcava 23 graus, e estamos em pleno Agosto. Duvido que faça assim tanto calor em Paris. Leio uma passagem do livro, em que o protagonista descreve as ruas vazias a escaldar, sem ninguém, apenas o escritor e sua imaginação. Essas ruas tão literárias, que o protagonista descreve, só serão mesmo possíveis acima de 38 graus, quando toda a gente se recolhe e só ficam escritores e poetas a cirandar. Abaixo de 30 graus, terei de aturar toda a gente, turistas, transeuntes e afins, e continuar a imaginar a Paris dos escritores e dos poetas. Daragne convence-me que é nas Portas de Paris, que vive a verdadeira cidade. Preciso de afastar-me do centro se quero conhecer a vida de quem aí vive: Porte de Clignancourt, Porte de Dorée, Porte de Vincennes. Esta última conheço bem. É a Porta onde começa o extenso mundo da periferia onde moram a maior parte dos portugueses: Fontenay-sous-Bois, Joinville-le-Pont, Champigny-sous-Marne. Se o sítio não tiver pelo menos três nomes, não é bom que chegue para um português morar. Ele disse que conhecia bem Portes de Vincennes, viveu lá perto, uma altura em que vivia melhor, depois teve que mudar para Norte. À medida que se empobrece, vai-se mudando de Sul para Norte. Até nisto Paris anda às avessas do mundo. Falo-lhe de um filme que fiz há pouco tempo, uma montagem de fotografias que faziam parte de um álbum de família encontrado em Porte de Clignancourt, na feira da ladra, que curiosamente tinha várias imagens tiradas em Porte de Vincennes, em 1931, aquando da exposição colonial internacional. Afinal ele tinha razão, vivem-se muitas vidas nas Portes de Paris. Contou-me que ainda existem restos da dessa exposição em alguns recantos do Bois de Vincennes. Vou investigar.

Já em terra, os assaltos dão-me as boas vindas logo no segundo transbordo que faço para chegar ao hotel. Uma jovem com um saudável ar sul-americano, ar perdido de quem se aproveita de outros perdidos, tenta colar-se à minha passagem no torniquete para me tentar abrir a mochila. Um casal de hindus com ar de quem tem 90 anos, 85 passados nos confins do metro de Paris, avisam-me e eu retiro a mala a tempo. Passo o torniquete e ela fica do outro lado. Represálias inúteis, agradeço envergonhado ao casal: “il faut faire attention ici monsieur…”. Sei muito bem que há assaltos destes todos os dias, e na verdade não fiquei sem nada, mas fica aquela sensação de que em Paris a poesia resiste em instalar-se, se é que alguma vez chega. Numa loja de conveniência, entro para comprar cervejas. Ao contrário de em Lisboa, não põem as mais frescas à frente. Desiludido, só penso nisso quando chego ao hotel e sou obrigado a beber uma segunda lata morna, mesmo com os 15 graus que o vento sopra na rua. O Verão não é nem de perto nem de longe o do livro do Modiano. Ainda bem, ficaram 35 graus em Lisboa e não deixam saudades.

(Continua)

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s